Livraria 18 de Abril

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Multiplicando o bem

   

A cena era comovente. Repórteres com seus microfones e câmeras apontados para aquele homem simples e maltrapilho que, um tanto sem jeito, contava a sua história.

Ele, um mendigo que vivia nos bancos das praças, fora condecorado por ter salvo a vida de três crianças.

Dizia, comovido diante das câmeras, que só as tinha livrado dos marginais porque teve uma experiência singular.

Contou que, tempos antes, num cair de tarde como tantos outros, monótonos e sem esperança, resolvera dar cabo da vida.

Não suportava mais aquela situação miserável em que se encontrava depois que perdera a família num acidente e os poucos bens que possuía, para um sócio corrupto.

Havia batido de porta em porta à procura de um serviço digno de onde pudesse retirar o próprio sustento, mas a resposta era sempre a mesma:

Sentimos muito, mas o senhor está acima da faixa etária para admissão.

Então resolvera que aquela seria a última noite que contemplaria o céu bordado de estrelas, única companhia daqueles dias amargos.

Todavia, dizia ele, Deus possuía outros planos para mim...

Naquela, que eu pretendia fosse a minha última noite, apareceu um anjo, digo um anjo porque era uma mulher jovem com expressões de doçura que eu nem imaginava que existissem.

Sentou-se ao meu lado naquele banco que, por muito tempo, tinha me servido de lar, e iniciou um diálogo afetuoso.

Interessou-se por minha história e condoeu-se com a minha desdita.

Falou-me de Jesus, o Sublime Nazareno que a todos ama, inclusive os pobres e aflitos, como eu.

Disse-me para que elevasse o pensamento e Lhe pedisse forças para suportar o fardo pesado que me fora colocado sobre os ombros, e eu o fiz.

Desisti do suicídio e consegui um serviço de jardineiro. Não ganho o suficiente para morar numa casa confortável, mas consigo pagar um pequeno barraco que me abriga das intempéries e não preciso mais me alimentar de restos colhidos na lixeira.

Aquela foi a primeira e única vez que vi aquela jovem senhora, mas suas palavras ainda embalam minhas horas difíceis.

E cada vez que o fardo me parece pesado demais, lembro das palavras de Jesus: "Vinde a mim todos vós que sofreis... Meu fardo é leve e meu jugo é suave..."

E foi porque alguém me estendeu as mãos e me retirou das portas do suicídio que eu pude salvar essas crianças das mãos dos marginais que as haviam sequestrado.

Porque um dia alguém me olhou e me fez ver que também sou filho de Deus é que resolvi multiplicar o bem que me foi feito, tornando-me útil.

Hoje eu entendo que não temos o direito de interromper a vida de quem quer que seja, mesmo que seja a nossa.

Gostaria de agradecer àquela moça que ousou se aproximar de um mendigo e estender-lhe a mão.

* * *

Não esqueças de que o bem que se faz é o único trabalho que faz bem. E esse serviço em favor dos outros é a caridade única em favor de nós mesmos, que pode atingir o cerne da alma, libertando-a para o sacerdócio do soerguimento do mundo.

Redação do Momento Espírita, com base no verbete Bem, do livro Repositório de sabedoria, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal.